Em Udaipur, na Índia, internos aproveitam tempo de reclusão para explorar paixões e propósitos de vida mais profundos
ESPECIAL – MESTRES DAS KEBRADAS NA INDIA
Por Giselle Paulino e Mestres das Kebradas, de Udaipur, Índia. Fotos de Haroldo Castro

A música de Parmeshwar Bhai, membro da Universidade da Cadeia de Udaipur, já fazia parte da história desse grupo. Desde a primeira vez que escutamos sua canção em junho de 2019, sentimos que algo havia mudado dentro de cada um. As cenas dos internos fazendo aula de ioga, trabalhando no jardim ou pintando figuras sagradas nas paredes criaram uma forte conexão com os líderes comunitários das nossas quebradas. “Eu me vi nesse lugar!”, exclamou Hermes de Sousa, fundador do Instituto NUA e Escola Debaixo da Ponte, em União de Vila Nova. “Sei que um dia estarei lá com eles”.
Pouco mais de seis meses se passaram e lá estávamos nós, na fila de checagem da segurança nos preparando para entrar na Universidade da Cadeia e vivenciar exatamente as mesmas cenas que havíamos assistido no vídeo.

A estátua de Mahatma Gandhi e um templo de Ganesha na entrada demonstram que não estamos diante de uma prisão qualquer. Sem a pretensão de mudar o sistema prisional, a oferece a oportunidade para que os internos, muitas vezes esquecidos pela sociedade, possam explorar suas paixões e propósitos mais profundos. Usando a música, espaços para a pintura, ioga, teatro, mímica, agricultura orgânica e música, a proposta é acessar outros aspectos da inteligência humana que não são explorados na educação tradicional.
A iniciativa é fruto da parceria entre organizações como Arte de Viver e Swaraj University, Gandhi Ashram-Moved by Love, Fundação Edible Routes e Navgurukulque. Os internos recebem apoio para desenharem seus programas de aprendizado de acordo com seus desejos e interesses. Este processo é inspirado na experiência da Swaraj University e Shikshantar.
“A sociedade ainda não encontrou uma maneira de lidar com aqueles que cometem crimes, exceto expulsá-los de nossas mentes e corações” diz Manish Jain, cofundador da Universidade da Cadeia. “Meu desejo é que eles possam mudar a percepção que têm de si mesmos.” Manish lembra que, para pessoas como Mahatma Gandhi, Malcolm X, Nelson Mandela e outros líderes sociais, o tempo que passaram na prisão foi um período de intenso aprendizado, transformação e crescimento.
Não precisamos ir tão longe. Foi justamente na prisão que nosso líder Hermes de Sousa descobriu duas de suas grandes vocações: a arte de esculpir na madeira e o dom de mediar conflitos. Essas duas ferramentas foram fundamentais para mudar a história de União de Vila Nova, no extremo leste da cidade e transformar o que em 1989 era um lixão clandestino dominado pelo tráfico em um bairro educador. Sua arte ajudou a tirar as crianças do lixo e possibilitou que toda uma geração voltasse a sonhar. Hermes também criou um fórum que há 20 anos reúne os moradores do bairro para discutirem seus dilemas e desafios. A prisão também revelou a ele a espiritualidade. Hermes é uma fonte de luz muito grande para nós e para milhares de pessoas.
A pergunta que fica é: e por que chamar de Universidade? Muitos reclusos foram reprovados na escola e carregam uma imagem negativa sobre a educação. Ninguém aqui se inspira no sistema educacional convencional e sua pedagogia. Ao contrário da maioria das universidades tradicionais, na Universidade da Cadeia a formação acadêmica formal dos presos é o que menos conta. Aqui ninguém precisa ter certificado ou diploma para participar. A Universidade da Cadeia reconhece que essas pessoas possuem conhecimentos, experiências, criatividade e curiosidade próprios. A missão aqui é potencializar esses talentos.

Poesia Samba Soul no palco
Também estávamos ansiosos para a interação entre Elem Fernandes e Claudinho Miranda, do Instituto Favela da Paz, com os músicos da Universidade da Cadeia. Sabíamos que esse encontro seria emocionante, afinal, a banda Poesia Samba Soul nasceu no Jardim Ângela, periferia de São Paulo, nos anos 1980, e teve o papel importante de tocar o coração dos jovens e diminuir a rivalidade entre as gangues. A música ajudou a mudar o curso da violência extrema do bairro, considerado em 1989 como um dos mais violentos do mundo.
Depois de conhecer a horta orgânica feita por eles, ver os internos cozinhando e preparando chapati, fomos ao encontro dos músicos. A ideia inicial seria interagir apenas com eles, no entanto, nos propuseram que o Poesia Samba Soul e a Out of the Box, nome oficial da banda indiana, fizessem um show juntos no pátio da cadeia para todos os internos.


Em poucos minutos o palco estava pronto. Os internos chegavam aos poucos e sentavam-se em fila, curiosos para ver a banda brasileira. Contamos aproximadamente 400 pessoas na plateia.
Claudinho com o cavaquinho e Elem no padeiro fizeram a abertura com as músicas da banda Olodum. Nelson Vilaronga se juntou à dupla e mostrou a ginga baiana. Em seguida, as duas bandas passaram a tocar juntas. Foi uma jam session com acordes “Brasilíndia”, que misturou vozes, criatividade, improvisos e muita alegria. De cima do palco, curtimos a presença dessas duas bandas de lugares tão distantes, que, apesar de não falarem o mesmo idioma, estavam alinhadas na mesma emoção. Era como se estivessem conectados em uma outra dimensão. Ao final do show, Hermes foi chamado à frente do palco e sua história inspiradora foi contada para toda plateia.
Show da Out of the Box na cidade

Havíamos assistido no dia anterior um show da banda Out of the Box durante o Udaipur World Music Festival, realizado em Udaipur, de 7 a 14 de fevereiro, que reuniu artistas de diferentes países. Parmeshwar Bhai abriu a apresentação com a canção “We are all one” (Somos todos um), levantando a emoção do grupo. Essa canção foi a trilha musical de nossa campanha de financiamento coletivo da. viagem. A música tem o poder de entrar no coração das pessoas sem pedir licença. Sabemos que a voz de Parmeshwar Bhai ajudou a nos trazer à Índia. Ficamos na primeira fila para prestigiar nossos amigos e agradecê-los com nossos aplausos.
“A Universidade da Cadeia mudou a energia de toda na prisão. Aquele lugar deixou de ser uma cadeia e se tornou-se um local de aprendizagem. Somos aprendizes e professores. Somos todos estudantes da vida”, disse o vocalista Parmeshwar Bhai.
No final do show, Haroldo Castro foi ao camarim fotografá-los e viu a emocionante cena do encontro com suas famílias. Muitos não se abraçavam há meses.

Quem mora na favela e lida diariamente com a realidade do sistema carcerário sabe o que significa dar oportunidade para os internos encontrarem seus verdadeiros propósitos. A experiência despertou diversos sentimentos e reflexões no grupo. A proposta de transformar a prisão em um espaço de aprendizado emocionou muito a todos nós. Reestabelecer a dignidade dos reclusos e ajudá-los a retornar à sociedade como líderes sociais capazes de transformar suas comunidades soa como um sonho.
Você pode assistir esse video e sentir um pouco da emoção do dia
*O projeto Mestres das Kebradas na Índia é uma iniciativa da UniDiversidade das Kebradas e foi viabilizada graças a um financiamento coletivo que captou cerca de 75 mil reais por parte de mais de 100 doadores. A valor apoiou a participação de Hermes de Sousa, do Instituto NUA; Eda Luiz, educadora do Cieja; Tina Gonçalves, projeto Café das Marias; Elem Fernandes e Claudio Miranda, do Instituto Favela da Paz. A logística da viagem foi executada de forma pro-bono pela Viajologia Expedições, operadora especializada em viagens de conhecimento e em rotas fora do usual. O projeto é uma parceria com a Articulação Sul, organização que trabalha para promover iniciativas de cooperação Sul-Sul que visem a construção de sociedades mais justas, igualitárias e sustentáveis
Participaram também Giselle Paulino, cofundadora da UniDiversidade das Kebradas, Haroldo Castro, da Vialogia Expedições; Suzana Nory, da UniDiversidade das Kebradas, Nelson Vilaronga, do Circo da Lua; Bianca Suyama, da Articulação Sul e UniDiversidade das Kebradas ; Ivone de Souza, da Articulação Sul e Suélen Brito, da rede TEN e UniDiversidade das Kebradas.